Maio_2009 - page 85

Manolita
Correia Lima
maio
/
junho
de
2009 – R e v i s t a d a E S P M
79
incluir o ensino de uma ou mais
línguas no currículo dos respecti-
vos sistemas educacionais quando
se estima a existência de seis mil
línguas nomundo?
1
. Seumdia esta
decisãoesteveassociadaàdefesade
sólidaculturageral –afinal, ogosto
classifica e distingue o indivíduo
–, contemporaneamente ela tem
transitado entre interesses
políticos
(manutenção da influência política
dos países hegemônicos),
econô-
micos
(ampliação da influência
dos países do centro da economia-
mundo),
comerciais
(intensificação
das trocas comerciais entre países)
e
trabalhistas
(ampliaçãodaempre-
gabilidade), por um lado, eadefesa
da
diversidadecultural
edodiálogo
intercultural
, por outro.
Atendo-se ao aspecto econômico,
Calvet (1999, apud PRADO, 2004,
p.67) esclarece que enquanto algu-
mas línguas são reconhecidascomo
um
capital
cujo domínio confere
mais valia
, outras não desfrutam de
qualquer prestígio nomercado lin-
guístico.Nestecontexto, facilmente
se percebe que as noções de
valor
ou
prestígio
estão associadas às re-
presentações e às realidades e tais
representações não só alimentam
as realidades quanto as reforçam.
Ou seja, quanto mais famílias e
governos atribuem valor comercial
à língua inglesa, por exemplo,
maior é o número de pessoas que
se empenham em aprendê-la, con-
sequentemente maior é o número
de pessoas que reforçam a sua
importância e supremacia sobre
as demais. Tanto é que, ao chamar
a atenção para fatores que podem
contribuir para a preservação das
línguas, Marleen Haboud (2009)
destaca o grau de apreciação que
determinada língua suscita entre os
falantes e não-falantes partindo do
princípio de que uma pessoa orgu-
lhosade sua línguaede suacultura
estariamais propensaagarantir sua
preservaçãodoqueaquelaqueper-
deu a admiração tanto pela cultura
quantopela língua.
Entreomonolinguis-
mo eomultilinguismo
Por mais que os termos
multicul-
turalismo
e
multiliguismo
sejam
temas recorrentes nos discursos
veiculados tanto na
mídia
quanto
na academia, observa-se que a
quantidade de línguas faladas no
mundo é em número decrescente
na medida em que muitas delas
desapareceram e outras tantas es-
tão emdiferentes
estágios de risco
(UNESCO, 2009). Levando-se em
contaque a comunicação entreos
indivíduos pressupõe a convivên-
cia social, as línguasmorrem seos
contextos em que elas são utiliza-
das são radicalmentemodificados
ou desaparecem.
Na terceira edição do UNESCO
interactive atlas of the world’s lan-
guages indanger
(2009),
2
osautores
nãodissimulamapreocupaçãocom
a rapidez com que tem ocorrido o
desaparecimento de diversas lín-
guas: mais de 200 extinguiram-se
ao longo das três últimas gerações,
538 estão em situação considerada
crítica
, 502 estão
seriamente amea-
çadas
,632estão
sobameaça
, e607
seencontramem
estadovulnerável
.
Centoenoventaenove línguas, por
exemplo,contamcommenosdedez
falantes e178mobilizamumgrupo
de falantes que não ultrapassa 50
pessoas. Esse processo corrobora o
pensamentodeMiltonSantos (2002,
p.113) quando o geógrafo assegura
que “a história das relações inter-
nacionais dos últimos três séculos é
também uma história de desvalori-
zaçãodo saber dos outros”.
De acordo com Marleen Haboud
(2009), à semelhança dos seres hu-
manos,as línguasnascememorrem,
entretanto, não há registros que
apontemparaodesaparecimentode
tantas em um espaço de tempo tão
curto quanto o que se tem visto no
decorrer dos últimos decênios. Para
a Autora, isso implica não apenas
a perda de palavras ou de expres-
sões,mas, sobretudo, deumacervo
de conhecimentos e maneiras de
conceber omundo e se comunicar
com ele, de recriar a história, se re-
lacionarcomoutros sereshumanos,
além de definir noções de tempo e
espaço, visõesdevidaemorte. Pelo
fatodecada língua serumuniverso,
insisteHaboud, a extinção de uma
palavraacarretaodesaparecimento
denarrativasúnicase, por issomes-
mo, insubstituíveis.
Então, quais fatores têm contribuído
para o desaparecimento das línguas?
Arapidezcomque temocorridoode-
saparecimentode línguas autóctones
decorreda combinaçãodemúltiplos
fatores: a intensificaçãodo comércio
associadaao incrementodosmeiosde
transporte terminampor influir sobre
amobilidade das pessoas (processos
migratórios)que,porsuavez,repercu-
te sobre amultiplicidadede contatos
entre diferentes povos e respectivas
culturas, engendrando tanto a desa-
gregação quanto o enriquecimento
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