Revista da ESPM_MAR-ABR_2012

a URSS, isto é, permitindo que adquiram armas nuclearesmas ameaçando-os comuma retaliação maciça em caso de ataque à América ou a seus aliados. Em outras palavras, retirou uma opção estratégica da mesa: a dissuasão nuclear. Do mesmomodo, transformouasambiçõesnucleares iranianas em “ casus belli ”, desde que fique com- provado que esse país já possui armas nucleares. O presidente americano, provavelmente, racio- cina com a convicção de que os líderes iranianos adotarãouma posiçãopragmática para assegurar a permanência do seu regime e para evitar uma destruição considerável do país. Para compreender essa orientação, é necessário levar em conta não apenas as fortes pressões do poderoso lobby judaico, mas, sobretudo, o enorme temor americano de que uma bomba iraniana gere uma corrida nuclear numa região chave, a de mais alta volatilidade em todo o mundo. Numa época de terrorismo inspirado por fanatismo religioso, conter a proliferação de armas de destruição de massa é de interesse prioritário para a segurança dos Estados Unidos. Terá, realmente, sido a intenção de Obama na entrevista ao The Atlantic dizer que os Estados Unidos não podem tolerar um Irã nuclear e por isso estão dispostos a ir à guerra para impedi-lo? Se assim for, a pressão aumentará mais ainda sobre Teerã. Mas os Estados Unidos ficarão engessados e se verão forçados a ir à guerra, junto com Israel, se as pressões diplomáticas e as sanções econômicas não impedirem a marcha do Irã. Ou, o que seria pior, perder a face não concretizando sua ameaça. Atualmente, existe uma discussão aberta surpreendentemente franca em Israel sobre a possibilidade de atacar o programa nuclear do Irã. Durante o ano passado, por exemplo, o primeiro-ministro israelense Benjamin Ne- tanyahu e o ministro da Defesa Ehud Barak, já discutiram abertamente com o ex-chefe do Mossad, Meir Dagan, o adversário mais pro- eminente de uma operação israelense. Mas grande parte da opinião pública está focada em saber se Israel deve atacar, não no que poderia acontecer se o fizer. Políticos israelenses estão ignorando várias das consequências a longo prazo potenciais de um ataque. De fato, a aná- lise em Israel sobre os possíveis efeitos de uma campanha de bombardeio contra o Irã é limitada a uma pequena elite profissional, principal- mente no Governo e sempre a portas fechadas. Esse círculo íntimo faz com que se considerem cenários do “dia seguinte” concentrados quase exclusivamente no que viria a ser uma resposta iraniana. Estão sendo ignoradas nesse debate várias das consequências potenciais, no longo prazo, de um ataque. As discussões estão concentradas no que viria a ser uma resposta iraniana, diretamente ou através de seus aliados, como o Hezbolá ou a Síria. Isso não é surpreendente, dado que Israel emprimeiro lugar deve se preocupar com as im- plicaçõesmilitares imediatasdeumcontra-ataque iraniano. Mas, ao fazê-lo, os políticos israelenses estão ignorando vários dos potenciais riscos e implicações a mais longo prazo. Entre essas questões, figuramos contornos deuma estratégia de saída de Israel, o impacto sobre as relações Estados Unidos-Israel, a convulsão diplomática global, a instabilidade dos mercados mundiais de energia e os resultados dentro do Irã em si. Israel deve examinar a fundo esses elementos e discutir abertamente as implicações antes de um ataque, já que essa iniciativa militar pode acabar com um desastre estratégico, mesmo que atinja os seus estreitos objetivos militares. O regime fundamentalista do Irã começou como uma teocracia, no tempo do fundador Ruhollah Khomeini, mas com a guerra contra o Iraque foram sendo criadas forças militares paralelas, como os Pasdaran e a Guarda Revolucionária. Gradualmente, o poder dessas organizações pa- ramilitares aumentou e suplantou o do exército, adquirindo um verdadeiro poder de tutela do governo, praticamente ao mesmo nível que o do aiatolá Khamenei, sucessor de Khomeini. Insta- lou-se no Irã umcomplexo industrial-militar que 90

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