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80 JANEIRO | JUNHO 2017 CREDENCIAL PAULO SOTERO Tradução do Brasil Instituto localizado emWashington tem a difícil tarefa de explicar a complexidade do nosso país ao público americano emtrinta e cincoanos no ofício de jor- nalista, trinta dos quais como corres- pondente internacional, o quemais fiz foi traduzir o mundo para os leitores de duas revistas e dois jornais brasi- leiros. Nos últimos dez, dediquei-me à tarefa oposta, ou seja, traduzir oBra- sil para omundo a partir doWoodrow Wilson International Center for Scho- lars. Localizado no centro da capi- tal americana, o Wilson Center é um memorial nacional ao 28º presidente dos Estados Unidos. Dirijo desde setembro de 2006 o Brazil Institute, um dos 15 progra- mas do Wilson Center e o único em Washington exclusivamente voltado ao estudo, análise e debate de polí- ticas públicas brasileiras. A tarefa é explicar o país na sua complexidade, com suas virtudes, problemas e dile- mas, a plateias de pesquisadores, estu- dantes, funcionários e executivos dos três ramos do governo americano, de 177 embaixadas em Washington, de empresas e associações empresariais, bemcomo de organizações não gover- namentais e instituições multilaterais sediadas na capital americana. O trabalho inclui escrever artigos, dar e facilitar palestras e entrevistas sobre temas brasileiros em univer- sidades, associações empresariais e a grupos interessados em assuntos internacionais em cidades america- nas. O desafio maior é conectar pes- soas e ideias. WoodrowWilson, pro- fessor e reitor da Princeton Univer- sity, dizia que era importante existir umespaço no qual aqueles que gover- nam e os estudiosos da arte de gover- nar pudessem se encontrar e trocar ideias e experiências, para benefício mútuo e da sociedade. OWilson Cen- ter é esse espaço. Umexemplo é o trabalho sobre esta- bilização econômica que Persio Arida escreveu durante umperíodo de cinco meses de residência no Wilson Cen- ter depois de concluir o doutorado emeconomia noMassachusetts Insti- tute of Technology (MIT), em 1984. O texto propôs a adoção de uma moeda de transição capaz de quebrar o ciclo vicioso da superinflação que castigou o Brasil durante décadas. Enrique- cido nos dez anos seguintes por um intenso debate, tornou-se pedra fun- damental do Plano Real. Hoje, além de dar visibilidade nos Estados Unidos aos debates em curso na sociedade brasileira, concentramo- -nos em temas específicos. Um deles é a demanda da sociedade pelo fimda impunidade e a afirmação do primado da lei. No ano passado, inauguramos uma série de palestras sobre o assunto. O Brazil Institute atua em duas outras áreas. Uma é a promoção da cooperação científica e tecnológica entre o Brasil e os Estados Unidos com vistas à maior internacionaliza- ção do ensino superior, da pesquisa de políticas e estratégias de inova- ção. Em abril deste ano, realizamos no MIT e no Wilson Center a Sexta Missão Parlamentar Brasileira sobre Inovação, com apoio da Interfarma. Durante os feriados da Semana Santa, nove deputados e três senadores de dez partidos buscaram, em debates com especialistas americanos e bra- sileiros, respostas a uma pergunta que não cala: por que oBrasil produz exce- lentes cientistas mas pouca inovação? Trabalhamos no mesmo tema com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), faci- litando a organização de simpósios e outras atividades acadêmicas voltadas ao estímulo de pesquisas colaborati- vas entre cientistas e estudiosos dos dois países. A outra área de interesse é a sustentabilidade ambiental do pla- neta, na qual o Brasil tem papel cen- tral como detentor da maior reserva de biodiversidade do planeta e padri- nho da Conferência das Nações Uni- das sobre Biodiversidade eMudança Climática, firmada no Rio de Janeiro, na histórica Cúpula da Terra, em1992. Em abril deste ano, falei sobre a atual crise brasileira a duas plateias em DesMoines, capital do estado de Iowa. Emmaio deste ano falei emAshville, no oeste da Carolina do Norte, a con- vite do Conselho de Relações Exte- riores local. Repeti lá que as crises e angústias nacionais, hoje eviden- tes também nos Estados Unidos, não mudarão a aposta quemotiva e orienta o Brazil Institute do Wilson Center: os interesses e valores que aproxi- mam as sociedades brasileira e ame- ricana são mais fortes do que os que as separam. ■ paulo sotero é diretor do Brazil Institute do Wilson Center.

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